
14 quilos e 73 centímetros, foram as medidas que a mãe prontamente disse quando perguntaram-lhe que tamanho era a sua vida. Ela se referia à filha, uma criança de um ano e alguns meses. Naquele lugar chamado Treze, a saúde e a doença do amor eram declarados de tempo em tempo.
Numa pesquisa de campo em meio aos cafés, bombonieire's, comércio simples, circulavam indivíduos com máscaras de bichos clássicos de pelúcia e coletavam as opiniões dos habitantes daquele espaço. As perguntas eram três, para a construção do pensamento que rondava, a meta era gerar conhecimento sobre a estadia, a saida, o deslocamento de cada corpo que ali vivia.
* Que tamamanho é a sua vida?
* O que te faria voar?
* Qual é o seu meio?
A civilização, ou seja lá o que era, porque não se avaliava estados de progresso e cultura social, situava-se em cima de um monte escondido nos confins da traseira de uma maternidade dos partos de prostitutas de um buraco que ficava à cerca dali, 12. Era um terra de terra-fofa, com habitações salpicadas no descampo, uma em cada ponto separada da outra. Esse modelo de vivenda impedia o aparecimento de ruas no solo, as ruas que conhecemos identificavam-se no céu, com um trânsito ininterrupto e desorganizado de pássaros. Sem teto, as casas eram iluminadas pelo Sol durante 16 horas, que era a duração de um dia. A passagem de um dia para o outro, útil na produção dos calendários, acontecia somente quando uma chuva densa e vertical descia do céu e lavava tudo.
Os seres, gente mesmo - crianças, pessoas maduras, adultos e debil's mentais - conviviam com os pássaros de forma doméstica. Daí, quando os pássaros pousavam no solo, molhados, logo depois da chuva, juntavam pessoas num processo de admiração reciproco: pássaro olhando para pele, gente boquiaberta com penas. A contemplação era sempre inédita, mesmo que diário, parecia sempre a primeira vez de contato. De fato tudo chamavam-lhes a atenção, os pássaros eram grandes, mais de dois metros, de asa a asa depende, mas como eles voavam muito alto, o topo do céu parecia ser bem mais alto e os pássaros, pequeninos.
Pasmos, aquele povo todo tentava agarrar "ossentimentos" que somente as asas davam e no solo não se conseguia essa sensação, por isso o voo era um desejo, ardente. Então a gente desde sempre aprendia que os pássaros lhe permitiriam a liberdade, sair daquele lugar. Só não existia conhecimento exato de como era possível a permissão, porque quando alguém saia de Treze, nunca mais voltava.
O sistema humano era modos de vida. Só modos de vida. Só mais uma pessoa. Só pessoas com emoções. Somente corpos. Corpos em pausa e em movimento. Podiam passar por muitos personagens, encarnados ou não, e esse era mesmo o intúito. Espalhada, a gente mirava por cada outro corpo que se aproximava pois já era claro que só se saia dali acompanhado.
Então uma procura por um encaixe era o ofício dos residentes de Treze. Via-se quase todos os dias, antes ou depois da chuva, um par de pessoas saindo voando, sorrindo, carregados por pássaros. Encontrar um parceiro, algum semelhante, amar do ato instante à fuga.
Isso aconteceu assim: Eles levantaram os braços e dois pássaros que sobrevoavam o espaço de encontro dos dois corpos naquele momento, pararam, cada ave em cima de cada corpo. E sem deixar de bater asas, suas patas cresceram, estendidas em formas mais desenvolvidas com ganchos nas pontas: os pés. Cada gancho, composto de quatro dedos, envolve curvado um ombro e no total é um gancho para cada ombro e cada corpo com dois ombros.
Os ganchos eram iluminados e essa luz era transportada para os corpos que irradiavam um neón incandescente. Os pássaros concentrados, não sessavam em bater suas asas, enquanto seus pés curvados captavam os corpos.
O evento se realizou porque uma energia ardente entre dois corpos explodiu. Uma resposta integral de um para o outro: veias e metabolismos unidos num conjuto de compensações; relógios biológicos com os ponteiros na mesma direção; harmonia nas sensações do cheiro, de gostos. Era como se um meditasse dentro do outro e se fosse somente um fenômeno físico, seria como ferver e derreter, condensar e expelir amor, tudo no mesmo momento.
Descortinados e nus, uma película cintilante da cor da pele saia de cada nuca e percorria os corpos por inteiro num processo de purificação. O passado era limpo com amnésia futurista.
A partir dali...
Eu chego a tempo, eu chego!
Antes que ela me rasgue
Antes que ela se case
Eu comemoro o tempo, o vento!
Antes de ontem, de hoje, amanhã, depois, mais, de novo...
Antes que ela me peça poesia
Eu sei o que faço, o centro!
Antes de qualquer poeira
Magnésio ou Maria.
Um rapaz teria dito "Isabel" como resposta para a unidade de medida e decoraram isto após vê-lo voando, seguro por um pássaro, gritando, rouco.